Caso She Zhijiang: O código nacional de dois grandes impérios do crime cibernético

Em novembro de 2025, o principal suspeito do grupo criminoso “Nova Cidade da Ásia-Pacífico” em Mianmar, She Zhiang, foi extraditado com sucesso da Tailândia para o seu país. Dois meses depois, Chen Zhi, fundador do grupo Prince em Camboja, também foi deportado. A resolução consecutiva destes dois grandes casos marcou uma reformulação completa do mapa do crime eletrônico no Sudeste Asiático — os três maiores impérios transnacionais de crime eletrônico declararam-se dissolvidos, e a captura de She Zhiang e Chen Zhi revelou de forma mais profunda um ecossistema criminoso enraizado no Sudeste Asiático: diferentes condições nacionais geraram diferentes impérios do crime negro, enquanto a cooperação jurídica transfronteiriça tornou-se a chave para uma repressão precisa.

Trajetórias duplas de She Zhiang e Chen Zhi: a distinção entre dois impérios criminosos

Se Chen Zhi representa o “crime negro de topo” — que se fortalece ao se inserir na economia legal e buscar proteção oficial —, She Zhiang é o típico “senhor do crime autônomo” — dependente de forças armadas locais e construindo um reino independente. Embora ambos sejam figuras de destaque no campo do crime eletrônico transnacional, seguiram caminhos completamente diferentes.

Nascido em 1982, She Zhiang tem uma trajetória quase lendária. Começou sua carreira com um cassino online nas Filipinas, mas foi condenado por atividades ilegais de loteria, e para escapar da repressão obteve a nacionalidade cambojana, mudando seu nome para She Lenkai. A verdadeira virada ocorreu em 2017 — She Zhiang entrou em Mianmar, em Myawaddy, e estabeleceu uma cooperação profunda com o comandante das forças fronteiriças Klern, Suqi Dud. As forças locais sob o controle de Suqi Dud tinham controle absoluto sobre a região, oferecendo a She Zhiang um palco de “território fora da lei”.

Neste solo de domínio autônomo, She Zhiang lançou o infame projeto “Nova Cidade da Ásia-Pacífico”. Embora oficialmente anunciasse um investimento de 15 bilhões de dólares e uma área de 180 mil acres na “Cidade Inteligente”, na prática transformou-se num covil de crime que combinava jogos de azar, fraudes e tráfico de pessoas. Este local, conhecido como “Parque KK”, fornecia espaço, proteção e suporte à cadeia produtiva para 248 grupos de crime eletrônico.

De “proprietário” a “proxeneta”: a cadeia produtiva do crime de She Zhiang

Diferente do modelo de fraude autogerida de Chen Zhi, a genialidade de She Zhiang residia em transformar o crime em plataforma e indústria. Ele transformou o parque numa base de produção de fraude eletrônica padronizada, alugando espaço para grupos de fraude e cobrando taxas de proteção, tornando-se um verdadeiro “proprietário do crime negro”. Toda a cadeia produtiva era completa: desde traficantes de pessoas na Tailândia (que obtêm entre 30 a 40 mil yuans por pessoa, sendo 10 mil usados para subornar policiais fronteiriços), até a gestão de propriedades, serviços de alimentação, e os “chefes” de fraude e os “porcos” presos, formando um ciclo fechado de “recrutamento — transporte — cárcere — fraude — partilha do produto”.

Este império criminoso causou danos incalculáveis à China: mais de 200 plataformas de jogos de azar atraíram 330 mil participantes, com um montante de mais de 2,7 bilhões de yuans em valores envolvidos. Ainda mais chocante é que quase 50 mil pessoas ficaram presas em Myawaddy, com menos de cem escapando por ano. O parque era gerido de forma militarizada, e quem não obedecia sofria agressões leves ou até morte. Os que conseguiam escapar descrevem o local como um verdadeiro “inferno na Terra”.

Em 2021, o Ministério Público chinês emitiu um aviso vermelho através da Interpol contra She Zhiang. Em agosto de 2022, a polícia tailandesa o capturou em Banguecoque. Após mais de três anos de batalha jurídica transfronteiriça, em novembro de 2025, She Zhiang foi finalmente extraditado para o seu país e posteriormente preso pela polícia de Zhenjiang.

O caminho “vermelho” de Chen Zhi: lavagem de dinheiro com aparência legal através de criptomoedas

Em contraste com o crescimento “selvagem” de She Zhiang, Chen Zhi, nascido em 1987, seguiu uma rota criminosa mais elitizada. Conhecedor da arte de “lavar dinheiro”, envolveu todo o império criminoso numa fachada de “grupo empresarial internacional”.

Em 2015, Chen Zhi começou a montar uma rede criminosa global. Sua estratégia principal era “enquadrar o ilegal como legal” — estabelecendo empresas aparentemente legítimas em mais de 30 países, abrangendo setores como imóveis, bancos, turismo e tecnologia. Essas empresas eram na verdade fachadas para fraudes eletrônicas. Com esse modelo de “gestão diversificada”, o grupo Prince rapidamente consolidou sua presença no Camboja.

Em julho de 2020, ocorreu uma virada — o então primeiro-ministro do Camboja, Hun Sen, concedeu a Chen Zhi a condecoração de Oknha. Essa honraria consolidou sua identidade como “empresário de topo vermelho” e lhe proporcionou uma proteção oficial para suas atividades criminosas.

A verdadeira arma secreta de Chen Zhi era seu ciclo fechado de “fraude global + lavagem de dinheiro com criptomoedas”. Na fraude, o grupo Prince rompeu as limitações regionais tradicionais, chegando a criar uma “rede de Brooklyn” nos EUA, usando “investimentos em criptomoedas de alto retorno” como isca para enganar mais de 250 vítimas americanas, arrecadando mais de 18 milhões de dólares.

No lado financeiro, Chen Zhi aproveitou as brechas na regulamentação de criptomoedas, fundando a LuBian, uma piscina de mineração de Bitcoin, investindo os lucros das fraudes na mineração de Bitcoin. A lógica era simples e repugnante: usar os fundos roubados para iniciar a mineração, e “lavar” o dinheiro ilegal através do processo de mineração. Até 2020, Chen Zhi acumulou cerca de 127 mil bitcoins, cujo valor na época ultrapassava 15 bilhões de dólares. Ele chegou a se gabar para sua equipe de que a mineração era “lucrativa porque não tinha custos” — uma indireta de que os fundos eram provenientes de fraudes.

Ironicamente, essa enorme fortuna foi abalada por uma disputa interna — um “black eat black” — em dezembro de 2020, quando a carteira principal de Bitcoin da piscina LuBian foi atacada por hackers, e os 127 mil bitcoins foram roubados. A equipe de Chen Zhi publicou mais de 1500 mensagens de apelo na blockchain, até mesmo oferecendo resgate, sem sucesso.

A virada veio dos EUA. Esses bitcoins roubados permaneceram inativos por quatro anos, até serem transferidos para um novo endereço em 2024. O Departamento de Justiça dos EUA iniciou uma investigação, e, sob a alegação de “lavagem de dinheiro”, confiscou os ativos — a maior apreensão de ativos na história judicial americana. Em outubro de 2025, o DOJ apresentou acusações criminais contra Chen Zhi por fraude de telecomunicações e lavagem de dinheiro. Em janeiro de 2026, ele foi preso no Camboja e deportado para o seu país.

Dois contextos nacionais, duas formas de crime negro: domínio em Mianmar e busca por rentismo em Camboja

A ascensão de She Zhiang e Chen Zhi deve-se, fundamentalmente, às diferenças nos contextos nacionais de Mianmar e Camboja.

“Território fora da lei” em Mianmar

Após a independência, Mianmar mergulhou numa guerra civil que durou mais de 70 anos, e o governo central nunca conseguiu controlar efetivamente as regiões de minorias étnicas. O estado de Klern, onde fica Myawaddy, é uma região autônoma controlada por forças armadas locais — o Exército de Fronteira de Klern, embora nominalmente subordinado ao governo central, detém controle absoluto sobre a área. Essa estrutura de domínio autônomo criou um terreno fértil para o crime organizado.

As forças locais enfrentam enorme pressão financeira, e os lucros do tráfico tradicional de drogas e do comércio fronteiriço já não satisfazem suas necessidades. Assim, atividades como fraudes eletrônicas e jogos de azar tornaram-se “atalhos para lucros rápidos”. A cooperação de Suqi Dud com She Zhiang baseava-se em interesses mútuos — a Nova Cidade da Ásia-Pacífico trouxe enormes receitas fiscais e dividendos para o Exército de Fronteira de Klern, que por sua vez fornecia terras e segurança, formando uma aliança de interesses entre “senhores da guerra” e o crime organizado.

Além disso, a economia de Mianmar é atrasada, com alta pobreza e baixos níveis de educação, fornecendo mão de obra abundante para o parque. Pessoas atraídas por promessas de “altos salários” acabam sendo presas, exploradas ou mortas. Sobreviventes descrevem o local como um verdadeiro “inferno na Terra”.

Ambiente de busca por rentismo em Camboja

Ao contrário de Mianmar, que é fragmentado, o sistema político do Camboja é relativamente centralizado, com forte controle do governo. Contudo, essa concentração de poder também acarreta corrupção generalizada. Para atrair investimentos e impulsionar a economia, o governo adota uma postura de “regulação frouxa”, com regras de “troca de favores” e “negócios de poder e dinheiro”.

Chen Zhi aproveitou essa lógica de busca por rentismo. Investindo massivamente em imóveis, finanças e outros setores, ele trouxe receitas fiscais e empregos ao governo cambojguano, ganhando reconhecimento oficial e condecorações. O governo, por sua vez, facilitou sua atuação por meio de “aprovações simplificadas” e “honrarias oficiais”, formando uma cadeia de interesses entre política e negócios.

Após a crise econômica provocada pela pandemia, a necessidade de atrair investimentos aumentou. Chen Zhi aproveitou a oportunidade, consolidando-se como um “exemplo de recuperação econômica” e reforçando sua posição legal. Além disso, o sistema de regulação financeira do país é fraco, com brechas na fiscalização de criptomoedas, facilitando a lavagem de dinheiro com criptomoedas.

Dois tipos de queda, duas lições: cooperação judicial precisa para repressão eficaz

A captura de She Zhiang e Chen Zhi demonstra diferentes caminhos de cooperação judicial.

Para o “crime autônomo de domínio” de She Zhiang, o foco é cooperação regional. A polícia chinesa emitiu um aviso vermelho pela Interpol, a polícia tailandesa realizou a prisão, e, por meio de tratados de extradição China-Tailândia, ele foi trazido de volta ao país. Essa foi uma vitória da colaboração jurídica China-Tailândia, que mostrou que a cooperação regional pode interromper eficazmente a transferência transnacional de criminosos.

Para o “crime de busca por rentismo” de Chen Zhi, o foco é cooperação jurídica transnacional. O Departamento de Justiça dos EUA usou tecnologia de rastreamento de blockchain para localizar os bitcoins roubados, confiscando-os sob a alegação de “lucros de lavagem de dinheiro”. O governo cambojano cooperou sob pressão internacional, prendendo e deportando Chen Zhi. Essa é uma demonstração de colaboração jurídica China-EUA, que mostra o poder da fiscalização financeira global.

Reconstrução do quadro de governança: de abordagens diferenciadas à cooperação global

A queda dos dois impérios marca uma vitória de uma fase, mas a governança do crime eletrônico transnacional ainda está longe de terminar.

Para o domínio fragmentado em Mianmar, o foco é reforçar a cooperação regional + melhorar a governança local. É necessário aprofundar o diálogo com o governo central e forças armadas, estabelecer mecanismos de compartilhamento de inteligência e ações conjuntas. A comunidade internacional deve aumentar a assistência econômica a Mianmar, ajudando a desenvolver indústrias legítimas e eliminar as condições que favorecem o crime. Além disso, é importante fortalecer a cooperação com países vizinhos como Tailândia e Laos para cortar as rotas de transporte de pessoas e bens ilícitos.

Para o ambiente de busca por rentismo em Camboja, o foco é aprofundar a cooperação jurídica bilateral + combater a corrupção. É preciso aprimorar os acordos de extradição, troca de provas e mecanismos de supervisão. O governo cambojano deve estabelecer controles mais rígidos sobre o poder, combater a corrupção e fortalecer a regulamentação de criptomoedas, fechando brechas regulatórias.

No âmbito global, a governança do crime eletrônico transnacional deve evoluir para uma “rede multilateral de cooperação”. O caso do Departamento de Justiça dos EUA serve de exemplo — rastreamento de blockchain para localizar fundos ilícitos, ações de cooperação internacional e congelamento de ativos. O futuro deve incluir a criação de uma “Aliança Global contra o Crime Eletrônico”, integrando recursos de diferentes países, compartilhando informações e padronizando padrões jurídicos, formando um ciclo global de “repressão — perseguição — recuperação de ativos”.

Além disso, é fundamental fortalecer a regulamentação global de criptomoedas, promovendo a criação de marcos regulatórios unificados, eliminando brechas para arbitragem regulatória e impedindo a circulação transnacional de fundos ilícitos.

Alerta e reflexão: novas tendências na evolução do crime organizado

A desmantelamento dos impérios de She Zhiang e Chen Zhi é uma declaração firme de que a China continuará investigando e perseguindo todos os casos, além de uma vitória na cooperação judicial internacional. Mas é preciso estar atento: com o aumento da repressão, os grupos criminosos podem migrar para países com fiscalização mais fraca ou evoluir para formas de crime mais ocultas.

Isso exige que o sistema de governança seja capaz de compreender as particularidades de cada país, adotando estratégias “diferenciadas”; e que fortaleça a cooperação global, construindo uma rede de governança “sem pontos cegos”. Só assim será possível erradicar de vez o câncer do crime eletrônico transnacional, protegendo os bens e direitos legítimos de toda a população mundial, e fazendo a justiça iluminar cada “território fora da lei”.

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